PALAVRAS NO AVESSO – SARAU POÉTICO NA BEIRA-RIO

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

Talvez ali estivessem umas setenta almas – um pouco mais, um pouco menos. No paredão lateral da Academia da Saúde, puseram um microfone e uma mesinha de som. Em frente deste palquinho, os ouvintes, os poetas e as poetisas (ainda uso este termo, acho bonito e sonoro), sentados pelo gramado da beira-rio, a uns poucos metros das margens do Rio Tocantins, iam esperando os poemas serem recitados e as músicas dedilhadas nos violões que por lá iam aparecendo. Tudo enfeixado por um céu sem sinal de chuva.

Foi a Amanda Vitória quem bolou este sarau, motivada por uns encontros que ela viu em São Luís e deram nela vontade de fazer aqui. Por que não? Um sarau em que as pessoas recitassem as suas próprias composições, num momento autoral. Conseguiu.

Gente já experimentada nos caminhos da poesia. Gente que estava ali, recitando pela primeira vez, abrindo-se, irradiando sentimentos. Gente miúda. Gente que leu. Gente que protestou. Gente que emocionou(-se). Enfim, uma boa trupe.

Convém ressaltar que o evento não teve um níquel de apoio institucional – nem de governo, nem de empresa, nem de organização. Foi tudo feito na boa vontade, tudo na parceria, no empréstimo, na doação. Mas talvez tenha sido mais bonito assim. De qualquer forma, é um bom exemplo de que, quando se quer, se faz, com pouco ou muito recurso. O combustível da ação é o desejo, não o carimbo…

Houve também troca de livros. Quem levou, e quis, trocou seus livros. E aproveitou para aumentar sua coleção de leituras e de pessoas. Um plus.

Fiquei com duas boas impressões do sarau.

A primeira foi a de que, ao contrário do que muita gente pode pensar (e dizer), sempre há público para a arte, para a cultura, para a literatura, para a música, para a poesia. Sempre há gente interessada em sair de suas casas e ir ouvir o que outras pessoas têm a dizer. Sempre vai haver algumas dúzias de seres humanos que se emocionam e se motivam a cultuar e cultivar o sentimento – seja em qualquer formato que ele venha. Se houvesse apenas uma pessoa lá, já teria valido a pena. Mas havia bem mais. O que, certamente, vai motivar a Amanda e outras pessoas a investirem em mais saraus, a irem em frente, pela cidade.

A segunda boa impressão diz respeito ao fato de que nós, muitas vezes, nos imiscuímos e ficamos só na vontade. Acomodamo-nos, esperando o que os outros irão fazer. Se a prefeitura não fizer; se o governo do estado não fizer; se o governo federal não fizer; se a Casa das Artes não fizer; se a Associação dos Artistas não fizer; se a Academia de Letras não fizer, se o raio que o parta não fizer… nada sai. Mas nós temos duas mãos, dois pés, força e intelecto. E vontade. Então, vamos fazer, né?

O fato de que o sarau foi na parede da Academia da Saúde traz, em si, uma grande simbologia. Afinal, poesia também é saúde. Para a alma…

 

Deixe uma resposta