PALAVRAS NO AVESSO – PEQUENOS MACHISTAS

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo   da Ufma Imperatriz

Semana passada, estava na fila da Gol, no aeroporto de São Luís. Na minha frente, uma menina de uns doze, treze anos e um menino, de uns nove. Uma mulher os acompanhava. Aí eles começaram a discutir – não era bem uma discussão, mas um joguinho de pirraça, desses que os jovens fazem, para fingir que estão brigando. A “briga” era sobre a possibilidade de a mocinha ir na viagem (que, logo depois, entendi que nem tinha passagem). A certa altura da “discussão”, surgiu o seguinte diálogo: Ela: “Eu vou também”; Ele: “Não, você não vai”; Ela: “Eu vou sim!”; Ele: “Não vai não!”; Ela: “E por que eu não vou?”; Ele: “Porque meu pai não deixa.”; Ela: “Mas ela deixa” (ela, no caso, era a mãe dele, que estava ao lado); Ele: “Mas meu pai não deixa. E é ele quem manda!…”.  A discussão continuou, com outros argumentos, mas para mim bastou ouvi-la até aqui para refletir sobre como é que nascem os pequenos machistas.

Machismo não nasce por geração espontânea. Machismo é ensinado, desde o berço. E é reproduzido em todos os “aparelhos ideológicos do Estado”, para lembrar da classificação do velho Althusser, que tentava identificar por onde a ideologia se reproduz e capilariza pelo tecido social. E o machismo, claro, é uma ideologia. Digo mais: no Brasil, chega a ser idiossincrasia.

Então, o que aquele garoto disse não tem nada de anormal. É apenas um aspecto do que milhares e milhares e milhões de famílias brasileiras vivem, falam e pensam. Todos os dias. Dentro e fora dos lares. Nos parques infantis. Nas igrejas. Nos aniversários dos coleguinhas. Nas filas dos aeroportos.

Por isso que a gente tanto vê, reproduzidos pelas redes sociais (que, por extensão, são um espelho da sociedade – talvez muito mais fidedigno do que nos mostram os livros (para)didáticos…) comentários machistas. É assim, exatamente assim, que a sociedade pensa.

Como combater isso? Como transformar a sociedade na qual “quem manda é o papai”? Só há uma saída: fazer a contrainformação; fazer a contraeducação; espalhar, pelos mesmos aparelhos ideológicos, outros conceitos.

E focar na escola. Por uma razão simples: é na escola que a criança vai passar uma boa parte do seu tempo; é lá que ela vai aprender “coisas úteis para a vida”; que ela vai aprender a ciência da vida – e do comportamento social e individual. Se a escola assumisse, para valer, a publicização de um discurso antimachista, a coisa mudava. Mas assumir vai além, muito além, de fazer trabalho no dia 8 de março (Dia da Mulher), ou na disciplina de filosofia ou de sociologia, ou de ensino religioso (quando ele é cultura religiosa e não proselitismo). É assumir uma postura de formar um cidadão para um novo século, mais tolerante, mais disposto a dividir papéis sociais, sem desequilíbrios (talvez esse menino nem saiba, mas uma imensa maioria de lares brasileiros é mantida apenas por mulheres, sem “o papai que manda”).

O “papai que manda” deveria estar com os dias contados. Talvez em décadas…

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