PALAVRAS NO AVESSO – O MENINO CRIADO EM APARTAMENTO

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

O menino criado em apartamento não conhece os animais de perto. Nunca deve ter pego num chifre de vaca, nem na orelha de um jumentinho. Só conhece os animais na visita que a escola promove ao zoológico. Quando ele vai com os outros coleguinhas para ver os bichinhos enjaulados. E tirar fotografia digital para o blog  que a turminha está montando pro trabalho de Geografia ou Biologia. Ou uma selfie pra mostrar pra vovó, no whatsapp.

O menino criado em apartamento se diverte na lan house. Ou com o  playstation que ganhou do pai no Natal. Não brinca de roda, de pião, de polícia-e-preso, de balanço de pneu velho, de estilingue matando passarinho. Só anda de bicicleta nos limites murados do seu condomínio fechado. Com cerca elétrica por todos os lados. Só se agrupa com os coleguinhas do seu prédio, que os pais conhecem “mais ou menos”.

O menino criado em apartamento não curia a vizinha no quintal tomando banho no tanque.

(Quintal? O menino criado em apartamento não conhece essa palavra, que para ele deve ser um substantivo da vida rural ou pobre, pois ouviu a empregada falar um dia). Quando muito, o menino criado em apartamento “pega um lance” numa janela aberta em frente à do seu quarto, um peitinho fugidio longe, longe, uma toalha secando um corpo nu da cintura para cima.

O menino criado em apartamento não vai sozinho à rua por causa dos assaltos. Todos os dias ele vê a televisão falar da violência. Um coleguinha dele foi assaltado na porta da escola. O ônibus que a empregada pega para ir para a casa dele foi assaltado semana passada. O banco onde o pai dele trabalha foi assaltado mês passado e teve troca de tiros. O Jornal Nacional deu a notícia de que uma velhinha foi sequestrada (e o menino criado em apartamento já sabe diferenciar assalto de sequestro). Por isso é que o menino criado em apartamento só vai à rua acompanhado dos pais. Ou da empregada que o leva para o “particular” ou para a natação.

Mas o menino criado em apartamento vai ao shopping. E lá ele se solta e se diverte no parquinho a R$ 2,50 a ficha e come hambúrguer e toma sorvete do “Mac” e vai ao cinema com um sacão de pipoca e vê muita gente bonita, elegante, cheirosa, muitas vitrines atraentes e pode até brincar com quem ele não conhece, pois os seus pais estão na praça de alimentação tomando um chopinho ou comprando uma coisinha qualquer numa promoção qualquer de uma loja qualquer. E na hora de ir para casa, o menino criado em apartamento entra no carro do papai, com vidro fumê e ar-condicionado para refrescar e evitar os assaltos, principalmente àquela hora.

O menino criado em apartamento tem uma concepção bastante moderna de felicidade: felicidade para o menino criado em apartamento é poder fazer tudo isso que ele faz e ficar protegido da violência. Tudo o mais é muito abstrato (ou desimportante) para ele.

 

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