PALAVRAS NO AVESSO: NONSENSE

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

A vida é racional demais. Nela há muito pouco espaço para a heterodoxia, para o nonsense, para aquilo que não esteja enquadrado no rótulo de produtividade, do pragmatismo cotidiano que desemboca num “produtivismo racional acumulativo”. “O trabalho dignifica o homem”; “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Taí. Precisa mais?

E o resultado disso tudo é que, quase sempre, ficamos enfeixados em tarefas diárias que têm que ser produtivas: são as horas que temos que passar no trabalho (6 horas corridas; 8 horas por dia, em dois turnos de 4 horas); são os cinco horários que temos que passar na sala de aula, assistindo a matérias diferentes – ou agora, as “escolas de tempo integral”;  são as inúmeras reuniões de que temos que participar – na igreja, no sindicato, na associação, no condomínio, no grupo de pesquisa – para planejar as ações produtivas que vão estabelecer percursos de ganhos práticos, em quaisquer áreas; são os registros de ações práticas que temos que deixar enquanto estamos na internet – “sai do Facebook e vai trabalhar!”, “enquanto estiver na empresa, só poderá usar o e-mail corporativo”, “não perca tempo com sites que não te levam a nada”.

Até a diversão virou uma atividade prática. Vai sair de férias? Pois então vá se divertir, “recarregar as baterias”. Para quê? Adivinha: pra voltar mais produtivo ainda e poder ter o direito de ganhar mais um mês de diversão terapêutica, daqui a um ano… Chegou o fim de semana? “Ah! Eu preciso fazer valer os dois dias de descanso – na verdade, um dia e meio só… Senão, a semana que vem será uma droga”; “Sextou!!”…

A mesma coisa acontece com o turismo. Quase toda a publicidade de turismo possui um discurso terapêutico. A viagem tem que ser compensadora para a revitalização do ser humano, senão é pura perda de tempo e de dinheiro.

O resultado dessa carga toda de racionalidade estamos vendo agora, com a depressão e o stress sendo as doenças mais nocivas do século XXI. E vai aumentar essa estatística. E vão aumentar os consultórios de psiquiatra, psicanalista. E vão aumentar os surtos e os distúrbios psicológicos dos nossos conhecidos – e de nós mesmos. E vão aumentar as aposentadorias por questões meramente psicológicas ou psiquiátricas.

Para fugir dessa estatística, tome a decisão de ser um pouco nonsense, de sair do seu quadrado de racionalidade pelo menos 15 minutos do seu dia. Faça algo, em seu cotidiano, que destoe daquilo que o “mundo do trabalho” lhe cobra com voracidade. Algo que seja produtivo, sim, mas para você, para o seu bem-estar – se ajudar a coletividade com isso, ótimo, mas o foco é você, você mesmo. Ouça música, veja um filme, leia algo fora do seu universo de conhecimento útil, cante, dance, sapateie, faça ginástica, pinte, dobre, nade, corra, cozinhe, reze, ore, medite. Isso numa fração do seu dia.

O “mundo do trabalho” vai perder 15 minutos. Mas você ganhará mais vida.

(PS: Antes que perguntem o que eu faço: eu leio. E escrevo. A literatura não me deixa enlouquecer).

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