PALAVRAS NO AVESSO: NO FUNDO DO POÇO TEM ÁGUA DOCE

 

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

Quem foi que disse que estar no fundo do poço é uma coisa totalmente ruim? Como dizia um célebre apresentador de TV de São Luís, lá pelos anos 90, “pode ser e pode num ser”. Vai depender do que você faz com o sentido da frase. Vai depender de como você enxerga o fundo do poço. Vai depender da sua disposição de enxergar o que tem lá no fundo. Vai depender da sua energia para afundar ou boiar.

Eu prefiro achar que a frase, de alguma forma, pode trazer antes um fio de esperança do que uma irreversibilidade, algo com que nós não podemos lutar, que não traz nenhuma possibilidade de solução.

Aprendi, no dia a dia das minhas lutas, internas e externas, que sempre é possível ver uma alternativa diferente, quando o que se nos apresenta é apenas o lado negativo de algo. Acabou a grana no meio do mês? Se vire pra buscar mais; acabou o relacionamento? Parta pra outro; acabou a saúde? Se esforce pra ficar são, buscar tratamento, conseguir remédios e não se entregue pra morte facilmente; acabou a fé? Busque outra fé ou resgate a antiga, que só está lá, escondidinha, uma centelha esperando ser soprada pra virar chama; acabou o tesão? Busque posições novas, invente, mude de horário, compre umas fantasias; acabou o entusiasmo pelo trabalho? Mude de setor, peça pra fazer outra coisa, mude de horário – no limite, saia do emprego, se isso for possível; acabou o tesão de estar com os amigos de sempre? Faça amigos novos ou mude de papo com os antigos; acabou a vontade de viver na sua cidade? Tente transformar alguma coisa na cidade, ou se mude – se for possível. Enfim, busque sempre uma boa alternativa para algo. Senão, você se afogará no seu mar particular de lamúrias.

Experiência própria. Já quase me permiti me afogar muitas vezes. Já perdi tudo o que tinha algumas vezes. Já vi minha saúde ir pelo ralo do dia para a noite. Já perdi muito dinheiro. Já demoli alguns lares. Já comecei e recomecei um tantão de oportunidades que não cabem nos dedos das duas mãos. E sempre me refaço, me reinvento, vou tentando seguir em frente, como um cão vai andando, lambendo suas feridas. Nunca me entrego. Nunca submerjo.

É um exercício difícil, complicado e, no mais das vezes, solitário. Saiba disso: o mundo não quer ouvir suas lamentações. O mundo só quer ouvir suas piadas e suas histórias de sucesso. Ninguém terá paciência para seus fracassos e suas refacções. Todo mundo vai querer tirar fotos com você quando você chegar à boca do poço, mas ninguém (ou muito poucos) vai querer te puxar de lá. É você e você, meu caro, minha cara. A luta é sua. E valerá a pena – se assim for o seu desejo.

No fundo do poço, então, pode ter uma água doce, limpa e fresca. Fique um pouco lá, se Deus ou o destino permitir, e saia renovado, lavado e pronto pra nadar de novo.

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