PALAVRAS NO AVESSO: MEU JARDIM DE MONSTROS

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

 

(Para Adriana Moulin e Agostinho Noleto)

Na minha casa, em um cantinho no pé da porta dos fundos, abri um espacinho, recolhi na rua de trás uma terrinha e plantei um jardim de monstros. Peguei as sementes nos meus dias e noites, nas minhas horas mortas e vivas, nos meus mais íntimos momentos, nos meus sonhos intranquilos, nos meus estados de angústia e/ou euforia, nos meus dissabores, nos meus resquícios de humanidade, de ontologia. Peguei aqui e ali e fiz um jardinzinho. Abri a terra, meti cada semente no seu buraquinho, fechei com cuidado e pus água por cima. Deixei à sombra, para não torrar com o sol escaldante.

Dali a uns dias, começaram a surgir os primeiros brotos de monstros. Uns meio acinzentados, outros mais azulados e uns ainda amarelados, esverdeados, avermelhados, amarronzados. Cabeleiras, mãos, unhas, pés, pernas, olhos, bocas foram, aos poucos, ganhando formas mais definidas e alcançando os ares, crescendo e aparecendo. E monstros foram surgindo. E encheram totalmente o espaço reservado ao plantio.

Os monstros que nasceram e os que ainda nascerão vão sendo depositados num reservatório específico, que guardo atrás dos livros, na biblioteca, uma caixa fechada com uns buracos pequenos, para respiradouro.  E eles ficam ali, esperando os que ainda estão em atividade, diária, morrerem ou desaparecerem ou partirem simplesmente, para assumir o seu lugar e cumprirem  seu papel existencial.

Os monstros não têm uma forma definida nem uma única função específica. Servem para tudo, no fim das contas. Têm uma “utilidade-bombril”. Mas a maior delas é, na verdade, me fazer companhia, estar comigo nas mais distintas situações do dia a dia.

São monstros comparsas, monstros cúmplices, monstros companheiros, monstros colegas, monstros amigos. Servem de companhia, de colo, de ombro amigo, de confessionário, de espelho. A companhia deles é necessária para dar uma cara de normalidade ao cotidiano.

Redundante dizer que não oferecem perigo. Não atacam, não mordem, não assustam nem causam nenhum tipo de pavor.  Não são como os monstros estereotipados das histórias de terror. Talvez, se quiser construir uma imagem, diria que se parecem com os monstros dos desenhos infantis – os mais infantis. Não gritam nem rosnam nem proferem algum tipo de som pavoroso. Apenas ouvem e olham, quando eu permito a eles olharem para mim. No mais das vezes, sou eu quem os traz para perto, quem os olha, quem solicita a atenção, num diálogo em que só existe a minha voz e eles respondem com a proximidade, apenas.

Meus monstros são essenciais à minha vida, ao equilíbrio ontológico que persigo tanto e que me é tão dificultoso manter. E cada um deles traz, absolutamente em específico, um dos meus medos, uma das minhas instabilidades, um dos meus traumas e temores. Estão ali, expostos na pele de cada um, como uma tatuagem, como uma ferida, como um banner.

Quando a plantação acaba, eu recolho novas sementes, que estão espalhadas pelos meus dias e noites, e replanto. Porque a vida – a minha e a deles, entrelaçadas – tem que seguir, instável, (humanamente) imperfeita.

 

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