PALAVRAS NO AVESSO – CEM PALAVRAS SOBRE…

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

ESCREVER I

Escrevo porque não tenho nem grana nem saco nem desprendimento moral para ficar num divã de analista por horas a fio,  deixando minha vida nas linhas (tortas) do caderno de anotações que ele empunha como um prontuário.

Escrevo para me livrar dos meus fantasmas, exorcizar os bichos  que me assaltam as noites ou mesmo os dias. Que se escondem atrás de portas, estantes, embaixo da cama, nos boxes dos banheiros, prontos para me mostrar garras…ou um espelho.

Escrevo porque, de alguma forma, há em mim uma máquina de escrever que bate incessantemente…independente de mim, ela segue escrevendo  na minha alma.

ESCREVER II

Sou o mais preguiçoso dos mortais para escrever. Escrevo devagar, ruminantemente. As ideias vão surgindo, eu vou pensando (dias, semanas, meses) sobre elas e tentando um momento de sentar e pô-las no papel, aprisioná-las num formato qualquer.

Às vezes, uma ideia surge, eu não anoto em nenhum lugar e ela, simplesmente, desaparece. Depois, sem mais nem menos, reaparece subitamente – uma noite, uma madrugada, um incidente, uma conversa, uma leitura, um filme, uma música, alguém… e já fica presa numa crônica, num poema, num artigo, em cem palavras…

Tenho em casa um papel: “Textos para fazer”. Um dia, eu os aprisiono.

ESCREVER III

Eu me escondo e me mostro quando escrevo. Não é um exercício fácil tentar me esconder para os leitores e presumo que nem tão fácil assim para eles tentar me encontrar. É como no labirinto do Minotauro, em que Teseu foi guiado pelo fio de Ariadne…

E que fios eu deixo para guiar meus leitores? Vou deixando migalhas pelo caminho: uma palavra aqui, umas reticências ali, um trocadilho acolá, uma referência mais atrás do meu eterno “muro das lamentações”…

Meus leitores, acho até que já se acostumaram com a forma como eu lhes (d)escrevo sobre mim. Serão recompensados… no céu!

ESCREVER IV

Eu queria ser Rubem Fonseca. Mas aí Deus não ouviu direito e acabou foi me transformando num daqueles deformados que povoam a cabeça, o espírito e que o autor expulsa para a tela do PC, depois para a editora, que manda para a gráfica, para a livraria e nós vamos lá e consumimos aquelas histórias do submundo da classe média urbana e achamos cult tudo aquilo.

Eu nunca vou ser Rubem Fonseca, mas agora estou preso a ele por me sentir um dos seus fantoches tarados, mal amados, de alma estropiada.

Eu queria ser Rubem Fonseca; de alguma forma, consegui.

 

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