PALAVRAS NO AVESSO – AS REMINISCÊNCIAS DA MORTE

Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz

Eu tinha menos de dez anos quando morreu meu avô materno. É uma imagem ainda hoje muito clara, muito viva e muito forte. Ele estava na cama, já bastante combalido, quase não reconhecendo as pessoas, cercado pelos filhos e filhas e por vovó. Um quarto à meia luz, um facho de sol entrando por uma janela lateral, só. Era de manhã. E, pouco tempo antes de ele partir (não me lembro de quanto tempo), os netos foram levados ao quarto para tomar-lhe a bênção. Quando eu cheguei perto, pude perceber a quase falta de vida naquele corpo maltratado pelos meses de doença; vovô, que sempre era tão brincalhão, tão gentil, tão cheio de vida, estava como que um manequim mole, que nos olha sem olhar, o olho fixo em nós e em nada, ao mesmo tempo. Tomei a bênção encostando os lábios naquela mão quase gelada. Depois, as crianças foram tiradas do quarto. Acho que, pouco tempo depois disso, vovô morreu. Ato contínuo, a casa entrou em polvorosa, gente chorando, gente se descabelando, gente lacrimejando baixinho e no seu canto, as crianças meio sem entender muito aquilo, os mais práticos correndo para resolver as coisas efetivas de um funeral. Depois de tudo, antes de rumarmos para o cemitério, tiramos a clássica foto com o morto no caixão. A morte, enfim, cumpriu mais um ritual. E se foi.

É uma das presenças mais fortes que eu tenho da morte na minha vida. Isso porque eu amava o meu avô. Ele tinha o dom de saber amar cada net@, agradá-l@s com uma particularidade, fazer carinho, fazer graça, deixar seus netos e netas brincarem com seus apetrechos, andar embaixo da sua carroça, felizes.

A outra lembrança que carrego é a da morte da minha mãe. Mas mamãe morreu sozinha, numa UTI de um hospital em Teresina, toda entubada e inconsciente. Mamãe morreu sozinha, o que deve ainda ser muito mais triste. Vovô, ao menos, morreu perto de todos aqueles a quem amava. Mamãe chegou e foi velada na sala de entrada da nossa casa. Eu já tinha 28 anos, já era homem feito e pai de família. Chorei como homem feito que perdeu a mãe, perdeu o sustentáculo da sua vida, perdeu a bússola. Depois levamos o caixão para o cemitério. E a morte se despediu, de novo, mais uma vez.

Escrevi essas duas como que descrições narrativizadas da morte para dizer que, sempre que morreu alguém que eu conheço ou que é meu parente ou que, de alguma forma, a mim está ligada por quaisquer relações, eu me lembro das minhas memórias fúnebres. É um processo automático, essas imagens chegam sem que peçamos, ficam o tempo necessário e se vão sem que mandemos. Deve ser para completar nosso ciclo ontológico, que precisa, de quando em quando, ser realimentado. Deve ser para nos fazer reconhecer que a vida é frágil demais e que a única coisa certa nesta Terra é ela. E a eternidade, claro, para quem crê nela e trabalha para tal.

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