Intolerância religiosa: por que não fazer do respeito também uma religião?

 

Num país onde a liberdade de crença e de culto é assegurada pela própria Constituição Federal, o aumento do registro de casos e denúncias de violência e discriminação religiosa mostra que o tema ocupa cada vez mais o cenário nacional e revela a necessidade de enfrentamento do assunto e de respeito às diferentes crenças.

Intolerância religiosa, é, segundo o Relatório Sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil, elaborado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, no ano de 2016, o conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a diferentes crenças e religiões, podendo ser entendida como crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana. A violência e a perseguição por motivo religioso são práticas de extrema gravidade e costumam ser caracterizadas pela ofensa, discriminação e até mesmo por atos que atentam à vida.

É, sem dúvida, delito, cujas hipóteses vão desde o uso de palavras ofensivas ao se referir ao grupo religioso atacado e aos elementos, deuses e hábitos da religião em questão, ofensas no ambiente de trabalho, obrigatoriedade de realizar determinadas práticas religiosas, perseguições, postagem de vídeos e conteúdos de intolerância religiosa na internet, pichações, furtos, ataques a imóveis ou objetos simbólico-sagrados, até agressões físicas e assassinatos praticados com motivação religiosa.

Inserem-se neste contexto, por exemplo, o “chute na santa” praticado por um pastor, em rede nacional de televisão, no ano de 2005, o vandalismo do túmulo do médium Chico Xavier, o caso Kayllane, menina de 12 anos que foi atingida por uma pedrada na cabeça ao sair de um culto de candomblé no Rio de Janeiro em 2015 e quatro mortes que acometeram uma família de evangélicos em Itapecerica da Serra/SP. 

No citado documento percebe-se um aumento de hipóteses de intolerância religiosa relatadas pela imprensa escrita e do oferecimento de ocorrências em delegacias e órgãos públicos. Somente no Disque Direitos Humanos (Disque 100), principal canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos para registro de casos, no ano de 2015 foram relatados 252 ocorrências, isto, sem se esquecer nas situações em que não houve notificação.

Ressalta-se que os danos decorrentes da intolerância religiosa, além do desrespeito à diversidade de crenças e convicções e às liberdades individuais, vão desde prejuízos morais, emocionais e psicológicos, ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularizarão, exploração, a ofensas materiais, como depredação de imóveis, objetos, lesões corporais e até perda de vidas.

Deste modo, a questão é grave, e seu necessário enfrentamento tem ocorrido desde a criação de órgãos governamentais, como a Assessoria da Política de Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a criação do Disque 100, ao implemento de políticas educativas, como o lançamento da campanha “#AcrediteNoRespeito”, no ano de 2016.

Os dados mostram a relevância da abordagem do tema “O combate à intolerância religiosa no Brasil” na redação do Exame Nacional do Ensino Médio / Enem – 2016, realizado nos dias 06 e 07/11/2016, assunto que tem sido bastante discutido em todo o Brasil.

Inclusive, a questão tem sido objeto de tanta atenção que nas redes sociais e até em plataforma de mobilização social pelos direitos humanos, está sendo realizada campanha com o vídeo-poesia Religião de Souza Anamari  com milhões de visualizações:

VIDEO

 

O poema em destaque, como se verificasse a importância dada à compreensão do problema, à conscientização e à educação pelo mencionado Relatório Sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil, trata a religião como uma filosofia capaz de ser instrumento para permitir o convívio numa sociedade plural e uma ferramenta para a efetivação plena da liberdade religiosa no Brasil. E por que não?

Respeitar a lei não é uma faculdade, é uma obrigação imposta a todo cidadão, tendo ele religião ou não, e com o aumento das denúncias relativas à intolerância religiosa e o desenvolvimento e avanço de políticas destinadas ao controle das ofensas à liberdade de credo e culto, como a existência do Disque 100, e a conscientização das pessoas sobre o assunto, o Estado brasileiro começa a reagir com maior eficiência ao problema.

Este ‘respeito’ aparelha a liberdade de escolher, viver e cultuar ou não uma religião, garantindo uma vida digna a cada cidadã ou cidadão brasileiro, e seria uma religião libertadora e destinada à união de todos. Afinal, quem tem crença, ou não, em nome de uma sociedade democrática não pode fazer do respeito a sua religião?

Um comentário em “Intolerância religiosa: por que não fazer do respeito também uma religião?

  • 17 de abril de 2017 em 19:57
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    Concordo com este artigo 100% , percebo principalmente preconceito de pessoas em relação a religiões com histórico africano como umbanda ,candomblé e também percebo uma certa perseguição para quem não é de uma determinada nomenclatura e achando que só a dela é que funciona.
    Liberdade e amor nos falta e muito em nossos corações sabendo que é a única forma de estarmos em contato com o Deus vivo
    Abraços

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